Amor ou empatia? - um conto INFJ desconexo
00:30:00Um conto baseado em fatos reais, sobre o relacionamento de uma PAS/INFJ antes de saber que era PAS ou INFJ
Era tão diferente o ar! mais limpo, mais úmido e mais quente. Para quem vinha de uma cidade como São Paulo definitivamente era um cenário que valia a pena apreciar.
Fomos ao parque Rivadavia, onde você me disse que tinha uma feirinha de livros usados, fiquei encantada e prestei atenção em cada detalhe: os casais deitados na grama, o grupo de meninas de top conversando embaixo da árvore, o outro grupo de meninos tomando mate enquanto um tocava violão... eles pareciam tão relaxados e à vontade! como se estivessem no quintal de suas casas.
Eu era tão novinha e tinha passado a vida almejando por um grupo de amigos assim, sabe? tranquilos, que curtissem a natureza e gostassem de ficar jogando conversa fora ao ar livre.
Me sentia ainda um pouco perdida, eu era nova na cidade, e queria parar um pouco ali como aqueles jovens e apreciar o clima no parque, tomar um sorvete...
Mas tão radiante que você estava em minha companhia, que simplesmente não me deixava parar, era engraçado até! Sua empolgação era contagiante, embora me deixasse bastante cansada...
E foi assim que nasceu uma nova rotina: Comprar palitos de mussarela fritos no Mcdonalds e me levar a feirinha de livros do parque Rivadavia todo sábado.
Claro que fiquei impressionada como você conhecia aquela cidade como a palma de sua mão.
Me incomodava um pouco porque você não parava, queria me levar a todos os lugares em um fim de semana só, mas eu não te conhecia direito e eu tinha vergonha de dizer que estava cansada, não queria incomodar.
Eu percebi desde o início o complexo de inferioridade que você tinha, e era engraçado isso, eu mal te conhecia e eu já sabia tanto sobre você, mesmo sem ninguém me dizer nada. Você era atrapalhado, tropeçava nos próprios pés e eu tinha que ficar segurando sua mão como se você fosse um menino...
Você me dizia que não gostava da sua voz, do seu cabelo, do seu peso, do seu corpo...
Era estranho, mas isso me aproximava ainda mais de você.
Eu sentia pena, mas não era aquela pena de te achar um coitado, mas sim de querer te abraçar e cuidar de você, sabe? Sei que é difícil de entender, mas sempre me disseram que eu era mesmo complicada...
Quando você me contou sua história, eu entendi que você precisava de cuidados. Você era incompreendido, inteligente e já tinha passado por poucas e boas. Estava na hora de alguém cuidar de você, de verdade. Eu então, achei que seria a pessoa certa para o trabalho, pois eu mesma trazia vários complexos. A partir de agora eu faria o possível para tornar você, uma versão melhor de você mesmo. Faria você acreditar no seu potencial.
Três meses se passaram e as diferenças entre nós foram ficando evidentes:
Você queria fazer passeios românticos, e eu só queria ficar em casa, porque eu já trabalhava a semana toda com gente barulhenta.
Quando eu dizia que queria ficar em casa, para você era sinônimo de ficar grudado, me oferecer músicas românticas, e sentar escutando-as comigo, mas eu não gostava desse tipo de coisa, me deixava constrangida!
Você vendeu todos os seus itens de coleção apenas para ter dinheiro para me levar para passear, mas eu não havia pedido nada disso... Se eu soubesse que depois você comentaria sobre isso com tristeza, quase arrependimento, jamais teria permitido, isso não foi romântico, foi estúpido, bobo, precipitado.
Com quatro meses eu já não tinha mais tanta certeza que eu realmente fosse a pessoa certa para esse trabalho de cuidar de você. A responsabilidade era simplesmente muito grande, você me entregou seu coração e ele estava se tornando um fardo pesado demais para uma menina de 18 anos carregar.
É como se você tivesse colocado em mim TODAS as suas expectativas, esperanças e razão de viver, sendo que eu sequer sabia o que fazer da minha própria vida.
Quanto mais o tempo passava, mais você achava que eu já estava garantida. Que você era o homem perfeito e estava fazendo tudo certo. Mas eu ainda não me sentia segura com você, eu não sabia explicar o porque. Eu não me sentia segura em seus braços, nem deitada no seu ombro. Era bom, mas não era suficiente. Parece que estava faltando alguma coisa...
Sua família não gostava de mim. Me achavam bonita demais para você, e seu pai fez questão de deixar isso bem claro.
E você chorava. Chorava de raiva, chorava por causa do seu pai. Seu nariz sangrava cada vez que você falava com ele ao telefone, tamanha a tensão que ele impunha sobre o teu psicológico frágil, e eu tentava te ajudar, te encorajar, mas você sempre dizia que eu não entendia.
Você dizia que ele não mandava na sua vida, mas suas atitudes me diziam o contrário. Você tremia como um passarinho molhado só de lembrar das coisas que ele falava.
O engraçado era que enquanto existia um time de amigos seus torcendo por nós, outro time observava de longe e me chamava em particular para me fazer desistir. Mas eu tinha me comprometido, e estava com um medo enorme de desistir e acabar machucando você. Estava me abstendo de pensar em mim, para pensar em você e isso às vezes me fazia explodir em chiliques por qualquer coisa.
Um dia, nesse turbilhão de sentimentos e indecisões que pairavam sobre mim, fui colocada contra a parede. Tive que fazer uma escolha que mudaria a minha vida para sempre.
Cerca de dois meses depois, minha escolha estava feita, e lá estávamos nós. Casados.
Já no planejamento daquele evento pude perceber que havia algo errado em tudo aquilo, mas achei que era coisa da minha cabeça, do nervosismo, sei lá.
Não pude escolher muita coisa além do meu vestido para a cerimônia: tanto o hotel da noite de núpcias, quanto a lua de mel já estavam escolhidos e pagos pelo seu pai. Seria ótimo, se eu soubesse que ele estava fazendo de bom grado.
Ele também não me deixou ficar na nossa própria festa, fomos embora quando as músicas mais animadas começaram. Dançamos algumas canções para fazer fotos, e já nesse baile, estava me arrependendo, pois você não fazia o menor esforço para dançar, sei que talvez você estivesse com vergonha, mas aquele era o seu casamento! você quis aquilo, porque não fazer um esforço? Nas fotos saí sorrindo e você também, parecia que estávamos nos divertindo horrores! Mas não... eu estava cansada de te levar pela mão e dizer entre dentes: -"Eu também não sei dançar, vai se mexe!"
Eu estava sendo idealista. Era o primeiro dos muitos ideais que sonhei para esse relacionamento.
Eu estava sendo idealista. Era o primeiro dos muitos ideais que sonhei para esse relacionamento.
Mas enfim, saímos para a lua de mel. Fomos de ônibus, e com pouca bagagem. Sua irmã tinha se oferecido para cuidar da casa na nossa ausência, e se eu soubesse o que encontraria quando chegasse, teria aceitado.
Quando chegamos em casa, parecia que o furacão Katrina tinha passado por lá. Todo nosso enxoval estava usado, sujo e manchado. As toalhas bordadas com nossos nomes, esquecidas, emboladas e úmidas encima da máquina de lavar, lençóis em um balde com água podre. Nossas travessas manchadas de algum assado qualquer. A panela de pressão sobre o fogão, com algo mofado e estragado dentro.
Despensa vazia, geladeira igual. Tudo que minha família deixou arrumado para quando chegássemos, tinha acabado.
Banheiro sujo, cama revirada e manchada com algo que eu queria acreditar que fosse chocolate.
Bolas de cabelo e poeira rolando pelo chão. Nem o enfeite da mesa de centro escapou, estava cheio de chiclete, maçã roída e papéis de bala.
Ficamos apenas uma semana fora! É como se realmente tivessem feito um esforço para deixar um cenário de destruição, o que para uma recém casada, cheia de ideais e expectativas, era devastador.
Minha reação foi de perplexidade, decepção, raiva, não sei... sei que um sentimento desesperador crescia dentro de mim e começava a tomar forma.
Onde é que fui amarrar meu burro?
Aquilo parecia ser um recado claro dos meus sogros: "Não gostamos de você, e queremos que você saiba disso"
Passei anos da minha vida ouvindo que amor mesmo, só vinha depois do casamento e agora eu queria acreditar com todas as minhas forças nisso, apesar de, desde o começo não conseguir imaginar envelhecendo ao seu lado.
Morávamos em um bairro afastado, porém bonito e tranquilo. Ponto para o seu pai, que por sinal, achava que eu ia dar o golpe do baú e ficar com aquele imóvel.
Mas era lindo abrir a janela da sacada, e poder sentir o sol, as flores e os passarinhos cantando... música para os meus ouvidos, me davam esperança.
Passei dois meses tentando me ajustar a dupla jornada: trabalho ruim e distante, chegar e limpar, cozinhar, e passarmos tempo juntos enquanto planejava outros trabalhos para nossos agitados finais de semana.
Mas então eu comecei a falhar.
Comecei a ficar doente, eu passava semana atrás de semana com amigdalite, faringite, e todo tipo de "ite", febre, nem dava tempo de me recuperar. E eu alérgica a medicamentos e sem plano médico, sofria demais com isso.
Decidi então que sairia do trabalho para cuidar melhor de mim, de você e da casa. A ideia parecia boa, você de início concordou, me lembro de ouvir você dizer que se era isso o que eu queria, que eu poderia fazer.
Mas foi aí que a coisa degringolou de vez... e eu comecei a conhecer quem era você de verdade. Por trás dessa aparência de bondade, paciência e romantismo exacerbado, morava um ser perturbado, avarento, machista e egoísta.
Eu não sabia cozinhar, não tínhamos tv e nem internet. O livro de receitas que tomara emprestado, apenas continha pratos sofisticados e complicados. Mas eu tentava me lembrar da comida da minha mãe, e fazia o melhor que podia.
Limpava tudo impecavelmente, decorava e fazia planos. Comprei até uma réplica de uma pintura que você adorava do Michelangelo, foi bem baratinho e eu estava orgulhosa de mim mesma. A casa estava limpa, cheirosa e agora aconchegante. Eu estava pronta para deixar para trás os primeiros meses difíceis.
Mas você chegava em casa e parecia distante. Não falava comigo. Comia, se banhava e sentava no sofá assistindo aquela TV com estática, como se a estática fosse mais interessante que sua jovem esposa.
Eu sempre fui calada, então não precisava de muito para me deixar feliz, eu só queria ter uma daquelas conversas de casalzinho, afinal o sentimento que nos unia era frágil e precisava florescer. Então eu arriscava:
- Como foi seu dia?!
- Normal, o que você quer que eu diga?
E era silêncio o que se seguia.
O que estava acontecendo? O que eu estava fazendo de errado? Porque essa atitude?
O seu silêncio foi o começo do nosso fim.


0 comentários