Copeland é uma banda que eu conheci em meados de 2010-2011, não lembro ao certo, através de um colega de trabalho que era jornalista e músico, e tinha um gosto musical muito bom e diversificado.
Ele teve a sensibilidade de me apresentar bandas, que apesar de me conhecer pouco, ele achou que eu gostaria e acertou em cheio, as bandas que ele me apresentou naquela sala acústica onde trabalhávamos fazem parte da única trilha sonora que eu suporto escutar em repeat o dia todo.
Algumas músicas do Copeland me remetem a uma época de nostalgia extrema, mesmo que não conhecesse a banda, ou tivesse ideia de qual era minha preferencia musical.
Me refiro a minha adolescência, mais especificamente meus 13 anos, ano 1997, a idade mais surreal que eu vivi, com mais experiências marcantes e com pessoas mais marcantes ainda.
Foi nessa época que eu conheci a Daisy, ou Deise, acredito que era essa a grafia de seu nome, mas vou continuar chamando-a de Daisy por achar mais bonito.
A Daisy surgiu na minha vida de repente. Dizem que para cada introvertido, existe um extrovertido que o adota e comigo não foi diferente. Eu estava em uma fase em que eu sentia que não me encaixava em lugar nenhum, em grupo nenhum, apesar de ter aqui e ali umas amigas com quem eu conversava.
Me sentia feia, e por ter uma mãe extremamente religiosa, eu sempre estava por fora dos assuntos que a galera conversava, pois na minha casa apenas se podia ouvir uma estação de rádio (evangélica) e ler apenas um livro, a BÃblia.
Por questões de super proteção, eu não era permitida sair de casa, a menos que fosse para estudar /escola ou para a igreja. Então o meu refúgio era a biblioteca que ficava a meia quadra da escola, a desculpa de ter que estudar para alguma coisa ou fazer algum trabalho me dava algumas horas de paz.
A 7a série foi o ano mais eclético da minha vida. E a Daisy foi a responsável por fazer os meus dias mais leves, embora eu tivesse, oficialmente uma melhor amiga de jardim de infância, foi a Daisy que ocupou o lugar da irmã mais velha que eu sempre quis ter.
Ninguém sabia de onde ela surgiu. Todos nós nos conhecÃamos de vista, do bairro ou da escola mesmo, mas a Daisy surgiu naquela sétima série ninguém sabe de onde.
Ela morava no lado privilegiado do bairro, no centro, em uma casa extremamente bem localizada em frente a praça mais bem cuidada e de todos os bancos e comércios mais importantes. Numa época em que morar no centro do bairro era carÃssimo, e apenas pessoas antigas no local, e que tinham boas condições financeiras tinham casas lá.
Nós que morávamos nos polos, em breve descobrirÃamos que nosso bairro já não fazia mais parte do grande bairro. Era "O Bairro" versus o novo "Jardim alguma coisa" que a prefeitura insistiu em renomear.
Descer a ladeira da escola e ir para casa da Daisy sob a desculpa de fazer um trabalho era minha ideia de lazer.
Descer a ladeira da escola e ir para casa da Daisy sob a desculpa de fazer um trabalho era minha ideia de lazer.
E muitos desses encontros aconteceram durante o outono/inverno. Aquela ladeira alta e o vento frio batendo nas minhas bochechas as deixava ruborizadas e bonitas. Eu não me achava bonita, mas a Daisy sempre tentava me convencer do contrário.
O dia mais marcante pra mim dessa amizade inesperada, foi quando eu sem ter o que fazer desci a tal ladeira, e fui a casa dela na esperança de conversar. Ela era ainda um pouco "desconhecida" pra mim, então eu fiquei ao mesmo tempo radiante e sem jeito quando ela me atendeu e me convidou para entrar, mesmo não tendo ninguém em casa.
Lá, ela já tinha planos de sair, e enquanto conversávamos ela trocava de roupas, na minha frente, sem cerimônias.
Lá, ela já tinha planos de sair, e enquanto conversávamos ela trocava de roupas, na minha frente, sem cerimônias.
No som, rolava uma música animada que eu já tinha escutado em algum lugar, e assim que eu cheguei no quarto dela, ela já foi logo perguntando se eu conhecia a Shakira, a cantora colombiana que estava no auge do sucesso dela no Brasil com "Estoy Aqui".
Como a Daisy me fez rir tentando imitar aquele refrão que ninguém entendia!
Enquanto ela se trocava ela me fazia olhar pra ela, eu ficava super sem jeito, ela falava da cor do sutiã e de como era dificil encontrar tamanho 46 que não fosse na sessão de senhoras das lojas, ou nos catálogos da Demillus, e de como ela queria que fossem menores.
A Daisy tinha olhos verdes, era corpulenta, plus - size - sem - barriga, e na escola era apelidada de Cicciolina ou "Tchetchio" (sim, aquela atriz porn* italiana) graças as feições exageradas dela.
As sobrancelhas da Daisy eram feitas mas não eram estilizadas, eram peludas e meio bagunçadas, com uns fios pra cima. E pensando bem, ela lembrava mesmo a Cicciolina.
Daisy era misteriosa ao mesmo tempo que era extrovertida e carismática. Ela estava sempre rodeada de gente, ela NUNCA estava sozinha. Fundão, nerds, as minas-mano que geralmente faziam bullying com meninas como eu e meninos afoitos orbitavam a Daisy como se ela fosse uma celebridade.
Eu timidamente observava de longe, e era sempre ela que me chamava para fazer parte de um pouco daquilo tudo.
Como uma pessoa extrovertida pode ser misteriosa, talvez você esteja se perguntando?
Ora, ao contrário de nós que tÃnhamos "crushes" nos meninos tronchos da escola, (que hoje pensando bem nem de costas eram bonitos) a Daisy tinha seus amores bem longe dali. Claro, nada a impedia de trocar beijinhos com a fanbase masculina dela, mas namorar mesmo era bem longe dali, e os namorados dela eram completamente diferentes dos meninos que estávamos acostumadas na escola.
Eles eram branquinhos, cheirosos, bem vestidos e alguns anos mais velhos.
E eu me perguntava de onde eles surgiam, onde a Daisy conhecia eles? Acho que isso era um adendo que fazia a vida dela ainda mais interessante pra mim, despertava minha curiosidade.
Eu não tinha inveja da Daisy, eu a admirava. Ela era realmente a irmã mais velha que me fazia falta.
Tudo que a gente conversava tinha tom de amizade nova, empolgada. Ela não dava muitos detalhes da vida pessoal dela, dos namoros, e também não perguntava sobre a de ninguém, mas lembro que ela era romântica e nunca ficava "solteira" por muito tempo.
Não tÃnhamos malÃcia nas nossas conversas, éramos as tÃpicas amigas dos anos 90, que assistiam sessão da tarde e as patricinhas de Beverly Hills, que aliás a personagem da Alicia Silverstone (Cher) também me chegou a lembrar a Daisy em alguns momentos, e eu era a Tai (Brittany Murphy), a amiga esquisita que ela "adota".
Mesmo naquela época em que todo mundo queria ficar com todo mundo, ela vivia em seu próprio patamar, uma página a parte, é como se ela estivesse acima disso, esses meninos da escola não existiam no livro dela.
Não tÃnhamos malÃcia nas nossas conversas, éramos as tÃpicas amigas dos anos 90, que assistiam sessão da tarde e as patricinhas de Beverly Hills, que aliás a personagem da Alicia Silverstone (Cher) também me chegou a lembrar a Daisy em alguns momentos, e eu era a Tai (Brittany Murphy), a amiga esquisita que ela "adota".
Mesmo naquela época em que todo mundo queria ficar com todo mundo, ela vivia em seu próprio patamar, uma página a parte, é como se ela estivesse acima disso, esses meninos da escola não existiam no livro dela.
Mas essa amizade foi fugaz, durou pouco tempo demais. Daisy era mais velha.
Enquanto a maioria de nós tÃnhamos acabado de chegar nos 13, Daisy já estava em outro nÃvel. Já tinha 15 anos, quase 16, e isso aumenta ainda mais o mistério pois não existiam motivos para ela estar atrasada, ela era inteligente, tinha boas condições financeiras... enfim.
Não conversamos o suficiente. Eu levei um fora de um dos meninos que não saÃam da órbita dela, e naturalmente fomos nos afastando por conta disso. Ele sonhava com ela, e eu não conseguia me aproximar deles, pois não sabia como agir.
Quando a 8a série chegou, as turmas mudaram, a maioria se afastou e eu já não conversava com mais da metade da minha 7a série.
Continuamos estudando a tarde, mas a Daisy não.
Dois anos depois mudei de emprego, fui estagiar no centro de São Paulo, e ela continuou ali na papelaria, segurando aquele pedaço de vida antiga que eu sentia falta. Eu cheguei a sentir um pouquinho de inveja dela por isso.
Fomos nos vendo cada vez menos, até que ela acabou saindo da papelaria onde trabalhara por quase 5 anos. Eu nunca mais a vi. Ela já devia estar perto dos 20 anos, e eu com quase 17 ainda tentava saber o que seria da minha vida, ao mesmo tempo que tentava ocupar ao máximo o meu tempo para fugir da super proteção da minha mãe.
Eu já não tinha mais trabalhos da escola, nem a casa da Daisy.
Talvez, e muito provavelmente ela nem se lembre de mim, como tantos outros daquela época. Eu não era uma pessoa memorável, anyway.
Mas lamento que nossas vidas não tenham se cruzado em uma época diferente, eu queria ter sido mais livre, tenho certeza que serÃamos amigas até hoje.



