Hoje aconteceu-me algo no mÃnimo engraçado, pra não dizer revoltante, e eu queria dividir aqui com vocês.
Vou começar do começo:
Há mais ou menos 7 anos que trabalho com Design Gráfico. A princÃpio caà totalmente de pára quedas, mas descobriram que eu tinha talento para a coisa, e acabei abandonando uma carreira de 6 anos no ramo do Rádio e TV para me dedicar a algo que eu estava começando a gostar imensamente.
Quando isso aconteceu eu tinha por volta de 25 anos de idade, e como na época não tinha formação alguma, comecei a estudar e a fazer diversos cursos complementares para tirar o "atraso" e absorver a maior quantidade possÃvel de conteúdo.
Na época, meu chefe era um moço de aproximadamente 22 anos, que se gabava por ter saÃdo da faculdade direto para uma agência e que em menos de 1 ano se tornara diretor de arte. Ele agora ocupava o mesmo cargo no setor criativo da empresa onde eu trabalhava, sendo aquele seu segundo emprego.
Comigo trabalhavam mais dois mocinhos, um tinha 21 anos e era designer recém formado em uma faculdade de prestÃgio de São Paulo e o outro que estudava cinema, tinha por volta de 19 anos de idade. Ambos eram, hierarquicamente, meus superiores.
Então lá estava eu: mãe, no auge dos meus 25 pra 26 anos, com uma bagagem de 6 anos de profissão em mÃdia televisiva (produtora, editora de vÃdeo, operadora de VT e caracteres, assistente de palco e camerawoman), e mais de 9 anos trabalhando em outras áreas (antes de embarcar no Design eu já havia trabalhado como secretária, office girl, balconista, recepcionista, analista de qualidade, analista de help desk bilingue, redatora e assistente de comunicação) tendo que dizer sim senhor para 3 meninos solteiros que estavam praticamente trabalhando em seu primeiro emprego de verdade.
Fiquei quase três anos nesse emprego tentando superar todos os obstáculos, fazendo vista grossa para a forma como me tratavam e para a imaturidade tÃpica da idade, para que eu pudesse absorver o máximo de conhecimento e experiência.
Mas eu era assistente de arte, e assim me tratavam. O salário era o menor, os jobs eram os que requeriam o menor esforço possÃvel, ou à s vezes eu até pegava alguma coisa interessante, mas com deadline apertadÃssimo porque o designer principal havia procrastinado e finalmente rejeitado a peça, logo, eu não tinha tempo para aplicar qualquer detalhe que me fizesse demorar mais que algumas horas ou no máximo, um dia. Nada desafiador.
Na maior parte do tempo eu ficava sem nada para fazer, e por sentar na pior mesa, tudo que eu fazia era assistido por mais 4 pessoas, o que para uma introvertida já é péssimo, afinal sem privacidade = ansiedade = stress = trabalho meia boca. Mas aguentei firme, precisava daquilo, não só pela experiência, mas pelo salário, afinal eu tinha um filho pra sustentar.
Mas eu era assistente de arte, e assim me tratavam. O salário era o menor, os jobs eram os que requeriam o menor esforço possÃvel, ou à s vezes eu até pegava alguma coisa interessante, mas com deadline apertadÃssimo porque o designer principal havia procrastinado e finalmente rejeitado a peça, logo, eu não tinha tempo para aplicar qualquer detalhe que me fizesse demorar mais que algumas horas ou no máximo, um dia. Nada desafiador.
Na maior parte do tempo eu ficava sem nada para fazer, e por sentar na pior mesa, tudo que eu fazia era assistido por mais 4 pessoas, o que para uma introvertida já é péssimo, afinal sem privacidade = ansiedade = stress = trabalho meia boca. Mas aguentei firme, precisava daquilo, não só pela experiência, mas pelo salário, afinal eu tinha um filho pra sustentar.
Anos se passaram e nunca consegui emprego como designer, apenas como assistente. Hoje aos 32 anos de idade, não consigo mais exercer.
E o que isso tudo tem a ver com o que aconteceu hoje?
Bem, faço parte de um grupo no Facebook de designers que possuem portfólios em um dos maiores sites de referência na área. E é notória a falta de participação ativa de mulheres por lá, das quais eu me incluo, pois fico apenas olhando e nunca posto nada.
Não é por nada em particular, se trata de preguiça mesmo.
Então em um post promovido por uma mocinha, ela faz uma série de questionamentos especificamente para a parcela feminina do grupo e quais os preconceitos que já sofreram em nossa área para fins de pesquisa para um artigo que estava escrevendo.
Vi os primeiros relatos das meninas, que aparentavam ter seus 21-24 no máximo, dizendo que sofriam pelo machismo, pelo baixo salário, falta de reconhecimento, etc.
Vi os primeiros relatos das meninas, que aparentavam ter seus 21-24 no máximo, dizendo que sofriam pelo machismo, pelo baixo salário, falta de reconhecimento, etc.
Cada post recebia curtidas em peso, e a moça lá coletando todos os depoimentos.
E diante de tudo aquilo, me lembrei do que realmente me incomodava e senti que deveria fazer minha contribuição.
Acontece que nesse ramo de design gráfico e publicidade, com o crescente número de profissionais saindo da faculdade cheios de criatividade e energia para trabalhar nesse sem fim de agências descoladas com horários loucos, já não há mais espaço para os desempregados da área que passaram dos 30.
Soma-se a isso, a desvantagem de ser mulher e de ter "marido e filhos", pois na concepção deles, talvez eu tivesse que faltar um dia por alguma emergência com as crianças, ou quiçá, levando para outro extremo, pois na cabeça da maioria os 30 são considerados a idade fértil da mulher, quando a maternidade fala mais alto, e eu poderia engravidar novamente atrapalhando assim a fila de jobs e o andamento das coisas.
Ou seja, uma mulher de 32, raramente serve para uma área onde a geração Y domina.
Sendo assim, eu que deveria me sentir poderosa na minha terceira década de vida, me sinto na estaca zero. Como se tivesse acabado de sair da escola sem saber que rumo tomar.
Sendo assim, eu que deveria me sentir poderosa na minha terceira década de vida, me sinto na estaca zero. Como se tivesse acabado de sair da escola sem saber que rumo tomar.
Tive ainda mais certeza disso nos últimos três meses. Fui indicada para duas vagas que, segundo quem me indicou, eu tinha quase que 100% de chance de ser chamada, afinal eu tinha um currÃculo muito bom, além de ser trilÃngue, o que por si só já uma grande coisa hoje em dia.
E eu fiquei super animada, óbvio, afinal eu precisava trabalhar e o fato de ser um "QI" aumentava minhas chances. Todas as vagas as quais fui indicada no passado, me renderam o emprego, eu estava confiante.
O tempo passou e não recebi retorno. Pensei numa série de motivos, tentando acalmar minha ansiedade, mas eu estava lidando com o óbvio: minha idade era o problema.
Nossa Flávia que exagero! não, mesmo. Soube que a falta de retorno se dava ao fato que os empregadores deram preferência a meninas mais novas e solteiras, com muito menos bagagem profissional em relação a mim.
Expressei minha frustração com isso no meu post, e como eu já esperava, ele não serviu para o artigo da moça. Acredito que nenhuma delas tenha presenciado, parado para pensar nisso, ou pensam que um dia lhes vá acontecer.
Aliás, jovem não pensa no futuro. Dificilmente quando alguém com 19-20 começa em um primeiro emprego, abre uma previdência privada, ou junta a maior parte do salário para garantir um apê quando chegar a minha idade. Não, a maioria gasta tudo em brusinhas, barzinhos, sapatos, shows ou artigos da moda.
Os relatos que renderam participação no artigo foram os que falavam de assédio, machismo, misoginia e mais tantas outras expressões comuns às redes sociais.
Percebi um preconceito que ninguém dá bola, que ninguém comenta, que as próprias meninas que relatavam preconceito vindo de homens, também tiveram comigo. Eu passei dos 30 sim, tenho mais de um filho, sim, mas eu não sou tia de ninguém, muito menos inútil e menos criativa.
Pelo contrário, a rejeição das vagas em potencial, por mais triste que me fizeram sentir, apenas me encorajaram a me reinventar, me requalificar. De reafirmar como sou criativa e que meu lado Cama[leoa] anda mais forte e mais desenvolvido do que nunca.
Esse culto a juventude existe desde sempre, mas não é isso que pode nos impedir de fazer o que gostamos.
Talvez design gráfico em agência não seja mais algo que eu vá perseguir, mas esse conhecimento que eu trago não vai morrer comigo, por isso estudo para me tornar professora. Não existe idade para transmitir conhecimento, e quem sabe um dia, não serei eu ensinando artes para os filhos delas, que se tornarão os designers de amanhã?!