Amor ou Empatia? - Um conto INFJ Desconexo - Final

17:23:00


Seis meses se passaram desde o dia do sim.

A cada dia eu me sentia mais frágil. Comecei a alternar entre momentos de contentamento e de histeria. 

Sentia como se uma criança estivesse rabiscando freneticamente os meus lóbulos cerebrais com uma canetinha permanente enquanto gritava coisas no meu ouvido. Eu achava que iria enlouquecer! Não conseguia mais organizar as minha ideias.
E como se não bastasse, começou a faltar dinheiro. Agora o silêncio das nossas noites foram substituídos por discussões, eu chorava e você chutava coisas.

Nossa vida era uma piada. Um fracasso.

Eu não queria aceitar isso. Eu queria acreditar no que eu dizia para mim mesma: "homem é assim mesmo", "todo homem é caladão, gosta de ver sua TV depois do trabalho, lembra? o pai fazia isso."
Mas você era meu marido, não meu pai. 

Até que algo, que parecia ser a luz no fim do túnel, aconteceu:
Uma oportunidade de trabalho para nós dois, em outro país!
Você titubeou, mas seguimos o que parecia ser a solução dos nossos problemas. 

Partimos no mês de dezembro, eu estava tão esperançosa, mal podia me conter de tanta ansiedade! Era a primeira vez que viajava para outro continente!

Muitas promessas foram feitas, e eu sabia que enfrentaríamos algumas dificuldades, mas eu tinha fé que seria tudo passageiro, normal de novos começos.
Encontramos velhos amigos, conhecemos nosso novo "apertamento", e pouco tempo depois, já estávamos com nosso primeiro salário na mão. Uma merreca, mas bem mais do que tínhamos antes.

Não tínhamos tempo para comemorar. As jornadas mais curtas, eram de 24 horas, e as mais longas de 36 até 48 horas sem poder ir pra casa descansar ou dormir direito. No máximo um banho e uma soneca, porque de manhã o chefe chegaria e não queria desculpas, ele chegava as 8 em ponto, e queria todos ali.

"Televisão é assim mesmo" - me disseram. Vamos que vamos.

Não demorou muito e nosso primeiro aniversário de casamento chegou. Eu queria preparar uma surpresa para relaxarmos um pouco. Soube que havia um restaurante italiano perto dali, e eu queria que fossemos jantar, ter uma noite só nossa, sabe?!
Caramba, eu ainda tinha esperanças!

Acelerei o serviço, e passei o dia com borboletas no estômago. Não tínhamos trocado nenhuma palavra ainda, mas eu não estava preocupada com isso, a noite seria especial.
O fim da tarde chegou e eu fui pra casa. Eram quase 7 da noite, tomei banho, e antes de começar a me arrumar, fui procurar na gaveta aquele dinheirinho que eu estava guardando e... não estava lá.

Ué?!

Liguei para o escritório... você não estava.
Não tínhamos celulares, então o jeito era esperar.
7... 8... 9 da noite... Onde você estava?

Não aguentei esperar acordada. Estava exausta demais. Nem sequer soube se você veio para casa aquela noite.
No dia seguinte os humores estavam exaltados. Como eu fiquei dormindo, algumas pessoas estavam irritadas comigo.

Mas eu queria saber de você, o que houve? 
Na maior tranquilidade, você me contou que havia pegado o dinheiro para ir ao Burguer King com um amigo e voltou para o estúdio. Nem sequer lembrou do nosso aniversário. Eu não queria discutir, estava tão magoada, que não tive forças.

Passou...

Perto do segundo aniversário, você pisou na bola novamente, e dessa vez pisou feio! e eu me cansei. Chega. Fui embora recomeçar minha vida sem você. Alguns meses se passaram, você reconheceu seu erro, prometeu que as coisas iriam mudar, e eu voltei.
A Lua de mel durou pouco. As mudanças duraram cerca de 3 semanas. Seu narcisismo começou a ficar cada vez mais evidente.

Aos olhos de todos eu era a vilã, arrasadora de corações e você o pobre mocinho apaixonado, o sofredor, a vítima.

Você me diminuía. Me limitava, me controlava, me ameaçava.
Dizia que eu ia ficar sozinha.
Eu era um troféu para você. Aos olhos dos outros você era a vítima, sempre o alvo. O que ninguém sabia, é que eu só respondia à altura de tudo o que você fazia.
Quando a depressão bateu, você começou a dizer que era frescura, preguiça, que eu não te valorizava. 
Mas como valorizar? Uma pessoa doente, não consegue valorizar ninguém. 

Eu comecei a ficar apática, e deixei de te amar de vez. Na verdade eu comecei a questionar se um dia eu teria te amado. Ou se amor era aquilo mesmo, aquele banho de chorume que eu tomava dia após dia.
Deus, eu nem sequer ME amava mais!

Me sentia um lixo.

E você cansado de me ver daquele jeito, e talvez para sentir o gostinho da vingança de ser quem terminaria dessa vez, comprou minha passagem e me mandou embora, depois de anos levando no banho maria.

Eu recolhi meus caquinhos e fui.

Não passou muito tempo e consegui me recuperar. Retomei as rédeas da minha vida, deixei de ser menina, de ser a sombra dos outros, e me tornei uma mulher forte, experiente e independente. Recuperei minha dignidade, e descobri, que não era amor afinal de contas o que nos uniu em primeiro lugar, mas um forte senso de empatia que me ligou as tragédias da sua vida. 

Tragédias que o tempo não apagou. Tragédias que não te deixaram mais forte. Tragédias que, em vez de criar resiliência, te tornou narcisista e assustado, com medo de ficar sozinho. Preferindo viver uma situação ruim, do que ser abandonado.

E eu até quis te proteger, mas você dizia que eu anulava sua masculinidade. A verdade é que eu e você éramos frágeis demais juntos.

Sete anos se passaram desde que eu peguei aquele avião. 

Ah... como é bom aprender com a vida!

Minha segunda chance chegou e eu vivo cada dia com gratidão, por tudo que Deus me deixou viver, enquanto você ainda distribui culpa igual confete. Culpa a mim, culpa a todos, pelo seus fracassos. 

Na sua versão da história, você é o mártir, o abandonado, e eu a mulher malvada que arrasou com a sua vida. Uma pena. Deve ser triste mesmo viver de recolher as migalhas do seu vitimismo.

Mas eu não te odeio. Nunca odiei.
Continuo sentindo pena, aquela mesma pena do começo, sabe?
Pobre menino frágil... se a vida até hoje não conseguiu te ensinar a ser forte, ninguém jamais conseguirá.

Parte I

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