A dona de casa e o machismo moderno
16:04:00Nos dias ruins, levantar da cama e cumprir uma ou duas tarefas já é uma verdadeira vitória. Faço o essencial motivada pelo amor aos meus pequenos e pra não ficar com a consciência pesada, quem gosta de crescer em um lar imundo?
Nos dias bons eu aproveito, brinco com as crias, coloco música alta e faço o máximo possível até escurecer, aí eu cozinho, jantamos e passo um tempo online jogando RPG com o marido.
Certamente o humor influencia no cuidado da casa e vice versa. Casa bagunçada pra mim = crise de ansiedade, então eu tento fazer pelo menos o básico todos os dias.
E haja crise de ansiedade com tudo que está acontecendo! Esse mês de março cumprimos 1 ano de quarentena por conta do Coronavírus. Em outubro/20, a quarentena passou a ser parcial, pois marido voltou a trabalhar alocado e eu finalmente criei coragem para, ainda que rapidamente, visitar lugares além do supermercado.
Mesmo com a diminuição do valor do salário, acabamos conseguindo juntar uma grana e finalmente tiramos o projeto de reforma do papel.
Mas não é da reforma em si que vou falar, isso fica pra um próximo post. Vou falar da minha experiência como dona de casa lidando com vários profissionais diferentes durante o processo.
Começando pela arquiteta: uma senhora magricela, brega e com ares de arrogância, mas que trabalha bem e tem inteligência emocional o suficiente pra lidar com clientes e prestadores de serviço sem surtar, coisa que eu não sou capaz. Quando ela descobriu que eu era "apenas" dona de casa, ela começou a me tratar como uma criança ignorante, me explicando em tom escolar o significado de coisas óbvias.
Os pedreiros coitados, não vou falar mal apesar de merecerem, pois me tratavam com educação e até uma certa reverência.
O mestre de obras aparecia uma vez ao dia, dava ordens e sumia com a maestria do mestre dos magos.
Geralmente ele vinha pela manhã, às 7, eu o recebia e voltava a dormir, pois com o pó e a constante circulação de ajudantes, não havia muito o que fazer. Quando eles terminaram a parte interna, limpei o que deu e para diminuir o cheiro de tinta, decidi fazer uma tela para a porta de entrada, assim poderia deixá-la aberta durante o dia.
Ao me ver sentada à máquina, ele diz em tom casual (nunca tive esse tipo de contato com ele antes):
- Ahhh, descobri o que você faz, você costura! - ora como assim o que eu faço?? Lavar a louça, cuidar dos meus filhos, limpar e lavar roupas à mão no tanque improvisado (pois reforma da lavanderia) não era fazer algo? Enfim... chucro, deixei passar.
Agora, a experiência que me levou a elaboração desse post: o atendimento do gerente de uma conceituada loja de móveis da cidade.
Quando a arquiteta indicou a loja eu imediatamente recusei. Serviço de marcenaria não é tudo igual, mas tem marceneiros muito bons que não exageram no preço por carregar uma "marca", mas ela insistiu e disse que eu não me arrependeria. Ok!
Um projeto caríssimo e simples pelo valor cobrado, mas que só pelo tratamento e comunicação formal (email, app e uso da linguagem culta!) já fizeram valer a pena.
Sessenta dias após fechar o contrato, me informaram a data de instalação. Eu hesitei, pois ainda estava em duvida se faria o vinílico então pedi mais alguns dias para pensar.
Quando tomamos a decisão, perguntei ao gerente se ainda estava disponível a data original de agendamento, mas se não, tudo bem. Ele não gostou, mas disse que iria verificar.
Acho que se ele pudesse dizer: "É o que minha filha? tá achando que aqui é o seu Zé carpinteiro? aqui agendamento é só pelo A - PLI - CA - TI - VO", ele teria dito.
Como ele não me deu retorno, me conformei e não esperava mais alteração na data, o que está agendado, agendado está.
No entanto, dois dias depois da conversa, me aparece o técnico de surpresa às 9 da manhã, eu durmo tarde então fiz o que pude em 5 minutos e o recebi toda torta. Essa semana, não tinha sido uma boa pra mim, então o serviço doméstico estava atrasado.
Eles vieram fazer a "medição fina" e depois deles irem embora, resolvi ter uma conversa com o gerente por telefone, não pelo Whats.
Ele me atendeu, e eu calmamente perguntei por quê não havia sido avisada com antecedência sobre a visita do técnico, e ele todo petulante: - Porquê? a senhora não estava em casa?
Ok foi nesse momento que uma chavinha virou aqui.
Pensei "Ele acabou de sugerir que sou uma desocupada?" e decidi incorporar um personagem durante a chamada:
- "Senhor fulano, eu trabalho home office até a madrugada, a obra que deveria durar 15 dias durou 35, estou sem móveis para guardar as roupas e objetos que estão ensacados tomando conta de toda a sala de estar, e por motivos de pandemia tive que dispensar a diarista, o senhor tem ideia do estado da minha casa e do transtorno que me causou?"
Imediatamente o tom de voz mudou. A petulância desapareceu. Ele pediu desculpas.
Para conseguir respeito, tive que: florear meu curriculum (afinal ser dona de casa é um trabalho!), mentir sobre a tal diarista (que pretendo chamar, mas não agora) e mentir sobre o transtorno dos sacos de roupa que no fundo, não dou a mínima, não me atrapalham em nada.
Em questão de minutos, ele removeu todos os impecílios que ele mesmo havia colocado pra realizar a instalação, mudou para um dia a montagem que ele havia fragmentado em 3, pois segundo ele, não queria atrapalhar a minha rotina de trabalho"
Foi quando me dei conta de um machismo reverso, esse machismo que algumas feministas tanto lutam contra está ultrapassado. Os homens não esperam mais que a mulher fique em casa, trabalhar fora se tornou obrigatório.
Eu mesma já presenciei esse tipo de contradição nas redes sociais, mas como era uma realidade que eu não havia enfrentado de forma veemente, eu não reparei que era uma "coisa".
Posts no Twitter com conteúdo desse tipo se tornaram comuns, principalmente entre os ditos "conservadores" que querem uma mulher dedicada, mas ao mesmo tempo postam coisas assim: "Como assim você não trabalha? aposto que dorme o dia todo ou só fica no celular gastando o dinheiro do marido!"
Sinceramente, eu desisto, o respeito foi-se há muito tempo e é melhor só viver da melhor forma possível pra mim mesma e me impor quando necessário!

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